Quando pensamos em Deus, uma das primeiras palavras que o cristianismo nos ensina é também uma das mais simples:
Pai.
Jesus poderia ter nos apresentado Deus de muitas maneiras. Mas nos ensinou a dizer: “Pai nosso”.
E para viver sua humanidade entre nós, Jesus também conheceu a presença de um pai aqui na Terra.
José.
Um homem sobre quem os Evangelhos dizem relativamente pouco.
Não conhecemos discursos de José. Não encontramos grandes sermões pronunciados por ele. Não há sequer uma frase sua registrada nos Evangelhos.
E, no entanto, sabemos quem ele foi pelo que fez.
José ficou.
Quando poderia ter ido embora, ficou.
Quando recebeu uma missão que certamente não compreendeu por inteiro, confiou.
Acolheu Maria.
Recebeu Jesus como filho.
Protegeu sua família.
Trabalhou, trabalhou e trabalhou.
Partiu quando foi necessário proteger seu filho.
Voltou quando foi possível voltar.
E depois viveu a simplicidade dos dias comuns.
Talvez esteja justamente aí uma das mais bonitas lições de São José sobre a paternidade:
Um pai não precisa fazer discursos extraordinários para deixar uma marca na vida de um filho.
Precisa estar na vida do filho.
Durante muito tempo, construímos a imagem do pai como aquele que deveria ser forte, prover a casa, resolver todos os problemas e esconder suas fragilidades.
Mas os filhos talvez precisem de outro tipo de força.
A força da presença.
Do pai que escuta.
Que pergunta.
Que percebe.
Que protege.
Que estabelece limites.
Que reconhece quando errou.
Que pede perdão.
Que abraça.
E, principalmente, daquele que compreende que os filhos aprendem muito mais observando como vivemos do que ouvindo aquilo que ensinamos.
José sabia tudo isso.
Jesus cresceu vendo as mãos de um homem que trabalhava.
Cresceu dentro de uma casa simples.
Aprendeu uma profissão.
Conheceu, o que significa pertencer a uma família.
José sabia que aquele filho não lhe pertencia.
Talvez todo pai, em algum momento, precise aprender a mesma coisa.
Filhos não nos pertencem.
São confiados aos nossos cuidados.
Chega um momento em que aquela pequena mão que atravessava a rua agarrada à nossa, precisa se soltar.
Os filhos crescem.
Escolhem caminhos.
Erram.
Acertam.
Algumas vezes nos surpreendem.
Outras nos preocupam.
Talvez por isso a missão de um pai nunca termine completamente.
Ela apenas muda.
Primeiro seguramos a mão.
Depois caminhamos ao lado.
Mais tarde, talvez caminhemos alguns passos atrás.
Até chegar o dia em que são os filhos que diminuem o passo para caminhar com o Pai.
E há algo profundamente cristão nisso.
Porque a paternidade não é posse.
É cuidado.
Não é autoridade pela autoridade.
É responsabilidade.
Não é construir um filho à nossa imagem.
É ajudá-lo a descobrir quem ele foi chamado a ser.
Neste Dia dos Pais, talvez São José nos deixe uma pergunta.
Não sobre quantas coisas um pai conseguiu oferecer aos seus filhos.
Nem sobre quantas vezes acertou.
Mas sobre algo muito mais simples:
Ele esteve presente?
Porque talvez nossos filhos esqueçam muitos dos presentes que receberam.
Esqueçam conselhos.
Esqueçam até algumas palavras.
Mas dificilmente esquecerão como se sentiam quando o pai estava por perto.
Se sentiram Protegidos.
Escutados.
Amados.
José não deixou discursos.
Deixou presença.
E talvez seja por isso que, tantos séculos depois, aquele homem silencioso de Nazaré ainda tenha tanto a ensinar aos pais do nosso tempo.
Por: Cida Bacaycôa | Jornalista
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