Acolher e proteger os migrantes é parte da missão da Igreja

Por comunicacao

Recentemente, a imagem de uma multidão de pessoas chegando ao mesmo tempo à cidade de Ceuta, um enclave espanhol no território africano, assombrou o mundo e lançou luzes, mais uma vez, sobre a grave  crise humanitária que enfrentamos. Foram mais de 70 mil pessoas, incluindo crianças e adolescentes, que saíram do Marrocos nadando ou escalando montanhas para pisar em terras espanholas e, assim, alcançar uma nova vida na Europa. Mais de 100 morreram na travessia e aquelas que conseguiram chegar à Ceuta foram repatriadas.

Há 11 anos, outra imagem desse drama havia provocado a mesma comoção: era a foto de um menino de apenas três anos de idade, Alan Kurdi, encontrado sem vida em uma praia da Turquia, após uma tentativa frustrada de sua família de fugir da guerra civil da Síria. Eles tentavam chegar à Grécia, em um bote inflável com 16 pessoas a bordo – o dobro da sua capacidade – e naufragaram. Somente o pai do pequeno Alan sobreviveu.

Os dois fatos mostram que, durante todo esse tempo, mais de uma década, as discussões sobre a questão dos migrantes e refugiados não evoluiu e, sob alguns pontos de vista, pode-se dizer que houve até retrocessos, considerando a reação de alguns setores da sociedade – como partidos políticos de extrema direita – e políticas de governo que penalizam o migrante.

Isso nos leva a uma reflexão: qual o papel da Igreja neste cenário? Em primeiro lugar, devemos lembrar que a Sagrada Família foi ela própria migrante, ao fugir de Herodes para o Egito. No Novo Testamento, em Mateus 25, Jesus se identifica com quem é obrigado a deixar sua terra ao dizer “Eu era estrangeiro e me acolhestes”.

O acolhimento é a palavra-chave que deve direcionar a ação da Igreja em relação aos migrantes e refugiados. O Papa Francisco, argentino filho de imigrantes italianos, já havia dedicado uma parte importante do seu pontificado à questão migratória, definindo os quatro pilares que devem nortear a atuação dos católicos: acolher, proteger, promover e integrar.

Seu sucessor, o Papa Leão XIV, deu continuidade a essa missão e já em seu primeiro documento de exortação apostólica, denominado “Dilexi Te”, em outubro de 2025, fez a defesa dos migrantes, afirmando que “onde se erguem muros, a Igreja constrói pontes”. Em visita às Ilhas Canárias, que fazem parte do roteiro migratório e também pertencem à Espanha, alertou que “a dignidade humana não perde valor ao cruzar uma fronteira”.

No início deste mês de agosto, o Vaticano divulgou uma mensagem ao Dia do Migrante e do Refugiado, que é celebrado desde 1914 em 27 de setembro. Dessa vez, o Papa chamou a atenção para o drama das crianças que compõe as levas de forasteiros em terras estrangeiras.

Elas muitas vezes são separadas de seus pais e são sempre o elo mais vulnerável de uma condição que por si só já é de extrema vulnerabilidade. O tema da mensagem é “Mesmo um só destes pequeninos” está disponível para leitura no site oficial do Vaticano e nela Leão XIV pede a proteção da Virgem Maria para esses menores que, assim como o menino Alan, são vítimas inocentes neste processo.

Nessa reflexão, não devemos nos eximir de nossa responsabilidade pessoal perante esse drama. Lembremos sempre que a fé cristã é, em sua essência, uma fé de peregrinos e que devemos reconhecer em cada rosto que chega de longe o rosto de um irmão.

Por: Celia Raquel
Jornalista – PASCOM

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